Campos de criação e ensaio de roseiras Meilland em França

Antes de uma rosa ter nome: os anos por detrás de uma nova variedade

A primeira vez que conheci um criador de rosas foi em 2010.

Estava a visitar a Meilland e a Delbard em França. As rosas já faziam parte da minha vida, mas essa viagem mudou a forma como as via.

Até então, conhecia sobretudo a criação acabada: a rosa de nome bonito, cor invulgar, perfume que nos faz aproximar, flor perfeitamente formada ou a trepadeira capaz de transformar um muro ou um arco.

O que nunca tinha compreendido verdadeiramente era tudo o que acontecia antes de essa rosa chegar até nós.

Ao percorrer os enormes campos da Meilland perto de Lyon, descobri algo que me surpreendeu. Disseram-me que criar uma nova rosa de jardim podia demorar cerca de nove anos.

Hoje, os programas de melhoramento variam e o percurso pode durar uma década ou ainda mais. Mas aquele número ficou comigo.

Nove anos.

Nove anos entre uma ideia na mente de um criador e o momento em que nós podemos finalmente escolher essa roseira para o jardim.

E esses anos não começam com uma flor. Começam com uma pergunta.

O que estamos a tentar criar?

Cada nova rosa começa com um objetivo.

Talvez o criador procure uma cor particularmente rara ou difícil de obter. Talvez queira um perfume excecional, uma forma de flor distinta, uma floração invulgarmente generosa, maior resistência às doenças, ao frio ou um melhor desempenho no jardim.

Por vezes, o objetivo é reunir várias destas qualidades.

Tudo começa pelos progenitores

Quando o objetivo está definido, surge outra pergunta difícil: Que roseiras deverão ser os progenitores?

Escolher os progenitores é, por si só, um trabalho de investigação. Os criadores acumulam conhecimentos ao longo de muitos anos, aprendendo que características se transmitem em determinadas linhagens e que combinações os poderão aproximar do que procuram.

Mas a natureza não trabalha a partir de uma ficha de especificações.

Dois progenitores cuidadosamente escolhidos não produzem simplesmente o descendente perfeito. Longe disso.

Polinização manual durante o processo de criação de roseiras Meilland
A criação de uma nova rosa começa com progenitores cuidadosamente selecionados e polinização controlada.

Milhares de possibilidades

As roseiras selecionadas são cruzadas à mão. O pólen de um progenitor é transferido para o outro. Se a polinização for bem-sucedida, desenvolvem-se frutos e, no interior, começam a formar-se sementes.

Cada semente representa uma nova possibilidade genética.

Gosto de pensar nisto como pensamos nos filhos de uma família. Podem ter os mesmos pais, mas cada um herda uma combinação diferente de características.

Com as rosas não é diferente.

É por isso que os criadores trabalham com números enormes de cruzamentos e plantas nascidas de semente. Não sabem qual delas, se alguma, terá a combinação que procuram.

Uma pode dar uma flor maravilhosa numa planta fraca. Outra pode ter uma cor fascinante, mas resistência insuficiente às doenças. Uma pode parecer muito promissora no primeiro ano e dececionar mais tarde.

E muitas simplesmente não trazem novidade, distinção ou fiabilidade suficientes para justificar a continuação do trabalho.

Por isso, o criador seleciona. E volta a selecionar.

Milhares tornam-se centenas. Centenas tornam-se dezenas. Dezenas podem reduzir-se a uma mão-cheia.

E, por vezes, depois de uma enorme quantidade de trabalho, nenhuma é suficientemente boa.

Então o trabalho recomeça.

Vemos o sucesso. Não vemos tudo o que foi rejeitado antes.

É algo em que raramente pensamos ao admirar uma rosa acabada de apresentar.

Encontrar uma rosa bonita é apenas o princípio

Antes daquela visita, penso que imaginava que, depois de encontrar uma nova flor bonita, o criador já tinha ultrapassado a parte mais difícil.

Na realidade, é apenas o início de outra etapa longa.

Uma flor bonita não basta.

Uma roseira de jardim tem de provar que consegue realmente viver num jardim.

As seleções mais promissoras passam, por isso, por mais anos de ensaios.

A planta mantém-se saudável? Como cresce? Volta a florescer? Tem um desempenho consistente de uma estação para a seguinte?

Como responde às doenças? O que acontece com tempo difícil? Como lida com calor, frio, chuva e condições longe das ideais?

O criador continua a fazer perguntas.

E a roseira tem de continuar a responder.

O campo que parecia abandonado

Uma das memórias mais nítidas dessa viagem é caminhar junto a uma área que, à primeira vista, parecia quase abandonada.

Havia ervas daninhas. As roseiras não pareciam mimadas. Nada tinha a ver com os jardins de exposição impecáveis que habitualmente associamos às grandes casas de rosas.

Por momentos, perguntei-me por que razão parecia ninguém cuidar delas.

Depois percebi. Era precisamente esse o objetivo.

Estas roseiras estavam a ser testadas.

Os criadores precisavam de ver o que as plantas fariam quando a vida não lhes fosse facilitada.

Manter-se-iam saudáveis? Continuariam a crescer? Que variedades resistiriam naturalmente? Quais começariam a ter dificuldades?

Um campo de ensaios não é um jardim de exposição.

A sua função não é fazer todas as rosas parecerem bonitas. É revelar a verdade sobre a planta.

Para mim, foi provavelmente o momento mais surpreendente de toda a visita.

As roseiras não estavam a ser descuidadas por falta de interesse.

Estavam a ser observadas porque alguém se importava o suficiente para descobrir do que eram realmente capazes.

As seleções promissoras também podem ser testadas em diferentes regiões e climas. Uma roseira que se dá bem num local protegido só respondeu a parte da pergunta.

Os criadores precisam de compreender como se comporta quando mudam as temperaturas, a chuva, a pressão das doenças e as condições de cultivo.

Só depois de anos de observação uma variedade começa a provar que merece avançar.

Não devemos esperar tudo de uma só rosa

Conhecer este processo mudou outra coisa na minha forma de pensar sobre as rosas.

Nós, jardineiros, por vezes pedimos tudo.

Queremos uma cor extraordinária, perfume intenso, forma perfeita, resistência excecional às doenças, floração constante, grande resistência ao inverno e crescimento vigoroso — mas não demasiado.

Também queremos flores abundantes, de preferência suficientemente grandes para cortar e levar para casa.

E, idealmente, muito pouco esforço da nossa parte.

A natureza raramente reúne numa única planta todas as características desejáveis no seu máximo.

O melhoramento é muitas vezes a arte de encontrar o equilíbrio certo.

Uma rosa de cor excecionalmente invulgar pode não ser a mais forte em todos os outros aspetos. Uma roseira capaz de uma primeira floração deslumbrante pode florir menos abundantemente mais tarde.

Outra pode ter uma cor mais familiar, mas compensar com excelente saúde e fiabilidade. E outra pode merecer o seu lugar no jardim por uma qualidade inesquecível: o seu perfume.

Isto não torna necessariamente uma rosa melhor e outra pior.

Torna-as diferentes.

Talvez as rosas sejam um pouco como as pessoas.

Todos temos pontos fortes. Ninguém é perfeito.

Escolher bem uma roseira também passa por compreender quais as qualidades que mais nos importam e apreciar cada variedade pelo que faz particularmente bem.

O que mais recordo são as pessoas

Anos depois, há outra parte dessas visitas que ficou comigo com tanta força como o processo técnico.

As próprias pessoas.

É difícil passar tempo com criadores de rosas sem reparar na paixão que têm pelo que fazem.

Nunca me pareceu uma profissão escolhida apenas para pagar as contas.

Sentia-se o entusiasmo.

Criação de roseiras e polinização manual na Delbard, em França
Por detrás de cada nova variedade há trabalho paciente, altamente especializado, e pessoas profundamente apaixonadas pela criação de rosas.

Podiam passar o dia inteiro a caminhar connosco por campos, áreas de investigação e parcelas de ensaio.

Explicavam o que observavam, o que esperavam melhorar, por que motivo uma característica aparentemente mínima era importante e por que outra planta tinha de ser rejeitada.

E depois, após passarmos por milhares e milhares de plantas, podiam mostrar-nos com orgulho as duas variedades que finalmente tinham conseguido obter.

Duas.

Depois de inúmeros cruzamentos, plantas, ensaios e desilusões.

Quando ouvimos isto pela primeira vez, é difícil assimilar.

Tanta terra. Tanto conhecimento. Tantas plantas. Tantos anos.

«Vale a pena continuar com esta.»

E talvez, no fim, apenas uma ou duas variedades levem o criador a parar e dizer estas palavras.

Ainda recordo o orgulho com que nos mostravam essas rosas. Não o orgulho de quem apresenta mais um produto, mas o de quem nos mostra algo que criou.

Quando compreendemos o que veio antes, esse orgulho faz todo o sentido.

Antes do nome bonito vem um código

Há outro aspeto deste processo que me fascina.

Durante grande parte do seu desenvolvimento, a rosa ainda não tem o nome bonito que depois reconhecemos num catálogo ou numa etiqueta.

Pode ser apenas uma planta nascida de semente, uma seleção ou um código.

A planta tem de provar o seu valor antes de começar a história à sua volta.

Só muito mais tarde, quando o criador decide que a variedade merece ser apresentada, recebe a identidade pela qual os jardineiros a irão conhecer.

Podemos encontrá-la anos depois como Pierre de Ronsard, Papa Meilland ou outro nome que se torna familiar aos amantes de rosas de todo o mundo.

Para nós, o nome é muitas vezes o início da relação com a rosa.

Para o criador, chega depois de anos de trabalho que nunca vimos.

Porque merece este trabalho ser respeitado

Quando compreendi o que envolve criar uma rosa, comecei a olhar de forma muito diferente para os direitos dos criadores e para as licenças.

Expressões como variedade protegida, direitos do obtentor ou licença podem parecer muito jurídicas ou comerciais.

Mas por detrás delas há algo profundamente humano.

Alguém teve uma ideia. Alguém acreditou que era possível criar uma rosa melhor ou diferente.

Equipas fizeram cruzamentos, criaram plantas a partir de sementes e rejeitaram milhares. Continuaram a trabalhar com as poucas que mostravam potencial.

Testaram-nas. Esperaram. Observaram-nas estação após estação.

Terra, investigação, pessoas, conhecimentos especializados e um investimento considerável fizeram parte do processo.

E passaram anos até se poder saber se todo aquele trabalho daria origem a uma rosa suficientemente boa para ser apresentada.

Essa criação tem valor.

Tal como respeitamos o trabalho de um autor, de um artista ou de um designer, acredito que devemos respeitar quem cria novas plantas.

É por isso que, na Famous Roses, vendemos roseiras licenciadas.

No caso das variedades protegidas, trabalhar através de canais autorizados faz parte do reconhecimento do trabalho do criador.

Para nós, não se trata apenas de cumprir uma regra. Trata-se de respeito.

Respeito pelo conhecimento.

Respeito pelo investimento.

Respeito pelos anos de tentativas sem sucesso que ninguém vê.

E, acima de tudo, respeito pela paixão por detrás da rosa.

Da próxima vez que escolher uma roseira

Da próxima vez que observar uma nova variedade, pare um momento antes de perguntar se tem tudo o que deseja.

Repare antes no que a torna especial.

Talvez alguém tenha passado anos a tentar conseguir aquela tonalidade.

Talvez o perfume fosse a qualidade em que se recusou a ceder.

Talvez a verdadeira conquista seja algo menos imediatamente impressionante: grande saúde, floração repetida ou a capacidade de lidar de forma fiável com condições difíceis.

Lembre-se de que a roseira à sua frente foi em tempos uma pequena planta entre milhares.

Alguém reparou nela. Alguém acreditou que valia a pena continuar.

Selecionou-a. Testou-a. Esperou.

Observou-a estação após estação.

E, finalmente, ao fim de cerca de uma década — por vezes mais —, recebeu um nome e chegou aos nossos jardins.

Desde aquela visita em 2010, nunca mais olhei para uma rosa da mesma maneira.

Talvez, a partir de agora, também não olhe.

Continue a história

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E quando a roseira chega ao seu jardim?

A longa viagem do criador pode ter terminado, mas no seu jardim começa outra. Os nossos Guias de cuidados com as roseiras reúnem conselhos práticos sobre plantação, rega, adubação e cuidados sazonais.

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